Morreu a 6 de novembro, aos 97 anos, um dos mais conhecidos cientistas de sempre – James Watson –, que descobriu a estrutura do ADN, juntamente com Francis Crick. Na biologia, diria que só fica atrás da descoberta da evolução por seleção natural de Charles Darwin e das leis da hereditariedade, deduzidas por Gregor Mendel. Pela sua descoberta, James Watson foi galardoado com o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia, em 1962, juntamente com Francis Crick e Maurice Wilkins.
Mas James Watson foi uma personagem bastante controversa, que manifestou posições racistas e sexistas e que defendeu o determinismo genético. Watson afirmou que a genética e a evolução justificavam que algumas raças eram mais inteligentes e assumiu posições em que inferiorizou as mulheres.
O pouco respeito que demonstrou por Rosalind Franklin, que obteve os dados experimentais por difração de raios X que permitiram a Watson e a Crick perceber a estrutura do ADN, é sobejamente conhecido e bem patente no livro A Dupla Hélice, escrito por Watson. As evidências obtidas por Rosalind não foram sequer reconhecidas. Também não foi incluída nos laureados com o Prémio Nobel, embora houvesse uma razão objetiva para tal, pois este prémio não é atribuído a título póstumo e Rosalind morreu em 1958.
A descoberta da dupla hélice foi sem dúvida a maior da biologia no século XX e James Watson teve intuição para perceber que assim seria, dedicando-se ao seu estudo com todo o empenho e confiança que lhe era própria. A solução do problema foi descrita num artigo histórico de 25 de abril de 1953, que continha apenas um esquema com a estrutura do ADN e as distâncias entre as moléculas que o compõem. Quase que podemos afirmar que, pela sua simplicidade e perfeição, a dupla hélice só poderia ser a estrutura correta.
O mais extraordinário é que Watson tinha apenas 25 anos aquando dessa publicação. Mas não se ficou por aqui e o seu grupo descobriu de forma independente doutro o ARN mensageiro, que transmite as “ordens” do ADN para a síntese de proteínas.
Estas descobertas, em conjunto com algumas outras, são a base do chamado “dogma central da biologia”, que explica que a informação genética contida no ADN passa para o ARN mensageiro e depois é traduzida em proteínas. A importância de se conhecer a estrutura do ADN foi também a de se conseguir explicar ao nível molecular como se dá a replicação e a cópia da informação genética de uma célula “mãe” para as células “filhas” e inaugurou a era da biologia molecular, que dominou a nível científico a segunda metade do século XX.
Watson foi o grande transformador do Laboratório de Cold Spring Harbor, em Nova Iorque, que se dedica a várias áreas de ponta, entre as quais a genética e genómica. No entanto, foi afastado do cargo de presidente em 2007, precisamente por causa de declarações racistas. Foi também o primeiro diretor do projeto do genoma humano que sequenciou todos os nossos genes e, curiosamente, forneceu evidências para sustentar que não há base biológica para a definição de raças humanas.
James Watson foi aquilo que os anglo-saxónicos chamam “larger than life”. Mesmo não esquecendo as polémicas e não podendo discordar mais das suas posições racistas e sexistas, que não têm base científica, ao contrário do que afirmava, não podemos deixar de olhar com admiração para o legado que Watson deixou ao mundo.
A descoberta da estrutura em dupla hélice do ADN permanece e certamente permanecerá por muito tempo como um marco fundamental na história da ciência. Permitiu-nos compreender como se organiza nas nossas células a informação genética e como essa informação é usada para produzir os componentes fundamentais que permitem a existência de vida, além de explicar como é que a informação genética é transmitida de geração em geração. Ou seja, permite-nos compreender a base molecular da vida na Terra, e algo desta importância e alcance só surge em média uma vez por século.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
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