É um dos vinhos generosos que por cá produzimos há vários séculos e, por sinal, magnífico. Mas são poucos os portugueses que sabem que Carcavelos é uma denominação de origem para um vinho fortificado, cuja regulamentação remonta a 1908, altura em que foram demarcadas várias regiões vitivinícolas em Portugal. A maioria ouve “Carcavelos” e pensa na praia da Linha do Estoril.
A região é tão, mas tão pequena, que caberia numa quinta. É hoje feita de 31 hectares de vinha, espalhados por seis localizações, tantas quantos os produtores-engarrafadores de Carcavelos. A mais relevante é a antiga Quinta de Recreio do Marquês de Pombal, em Oeiras, junto à Ribeira da Lage. Aí estão 20 dos tais 31 hectares da denominação de origem (DO), que são explorados, assim como a restante propriedade, pelo município de Oeiras.
“Portugal é um rectângulo voltado a Poente e só tem costa Sul no Algarve e na Linha do Estoril. A relação [dos diferentes terroirs] com o mar é completamente diferente se estivermos na costa Poente ou na costa Sul, por duas razões: primeiro, pela exposição solar, segundo, pela influência do vento”, começa por explicar Alexandre Eurico Lisboa, coordenador do Projecto da Vinha e do Vinho Villa Oeiras.
O vento que chega a Carcavelos sopra quase sempre de Norte e Noroeste e funciona como um factor de amenização do clima, que é ali “muito mais temperado do que Lisboa”, nota o responsável. “No Verão, estão 30°C em Lisboa e aqui estão 26ºC ou 27°C. E, no Inverno, se estiverem 5°C em Lisboa, aqui estão 7ºC ou 8°C. É sempre mais temperado, tem amplitudes térmicas menores e sempre este vento a secar e a amenizar o clima.” Raras vezes, a aragem vem de Sul, mas quando vem traz “um spray contínuo de água salgada”.
Estamos voltados ao quadrante Sul, com encostas de “até 15% de inclinação” e “uma altitude máxima de 100 metros” em relação ao nível médio da água. O solo argilocalcário, num terroir que, integrando o complexo vulcânico de Lisboa, está encaixado entre “os basaltos em Lisboa e os granitos em Sintra”. No meio, explica o arquitecto paisagista de formação, e “por estes movimentos tectónicos, veio à superfície o solo de fundo marinho”.
Alexandre Eurico Lisboa é o coordenador do Projecto da Vinha e do Vinho Villa Oeiras
Rui Gaudêncio
O que é que isso faz pelos vinhos? E que características tem o Carcavelos? Para começar, como “o solo é calcário esquelético” e tem um “horizonte arável muito curto”, a resiliente videira vai ter de utilizar muito bem a água e os nutrientes que este chão lhe lá. A videira não gosta de solos muito férteis e, como noutros terroirs difíceis, ali vai produzir uvas melhores. Vai concentrar-se em dar à uva — a sua semente, não nos esqueçamos — o pouco que tem.
Elegância e equilíbrio
Os Vinhos de Lisboa têm nove Denominação de Origem (DO), nove! Logo ali ao lado de Carcavelos, nasce o Colares, outro vinho de nicho. O que diferencia os vinhos de Carcavelos é a sua condição geográfica e a consequente combinação entre uma exposição solar excelente e a possibilidade de à noite haver um arrefecimento natural, importantíssimo quando se procura preservar aromas primários e produzir uvas equilibradas. “Geralmente, o vento pára ao final do dia e, todas as noites, recebemos uma brisa marítima que pela erra adentro. A influência atlântica aqui na costa Sul aqui é nocturna, enquanto na costa Poente é diurna. E isso é a grande diferença entre Carcavelos e Colares.”
Ali, junto ao mar, cheira a “mexilhões e maresia”. Neste licoroso com 18% a 21% de álcool — fortificado pela adição de aguardente vitícola —, encontramos a mesma frescura dos vinhos da costa Poente, mas outra elegância e sobretudo “muito mais nervo, muito mais músculo”, como nota Alexandre Eurico Lisboa, que compra o vizinho Colares ao “faroleiro, homem barbudo, de pele coriácea, fechado sobre si próprio, que depois de começarmos a conhecer revela grande generosidade e complexidade”, e associa ao Carcavelos a imagem de “uma princesa de cabelos dourados, que passa o dia todo a trabalhar para o bronze, e cujos cabelos são secos todos os dias pelo vento de Norte, que ao fim do dia deixa a sua chaise-longue e entra num spa de ocean mist para hidratar a pele”.
Na antiga Quinta de Recreio do Marquês de Pombal, em Oeiras, junto à Ribeira da Lage, ficam 20 dos actuais 31 hectares de vinha com autorização para produzir vinho Carcavelos
Rui Gaudêncio
Tudo para dizer que nos vinhos de Carcavelos há elegância. E por elegância o responsável quer dizer equilíbrio entre o álcool, a doçura e as restantes características organolépticas do vinho. Um teor alcoólico contido para um licoroso — por norma, anda nos 18% a 19%, podendo ir aos 21%; o terroir também não dá maturações muito elevadas —, menos açúcar do que o que encontramos nos Moscatéis ou nos Portos, uma acidez marcante (mas, objectividade inferior à do vinho Madeira, por exemplo) e uma salinidade maluca fazem do Carcavelos um vinho muito mais delicado do que intenso.
A salinidade, bem identitária, e a acidez cortam-lhe a doçura e o que sentimos em prova é que estamos a beber um vinho doce que nos deixa o palato seco. “Sempre. Em todos os vinhos”, sublinha Alexandre Eurico Lisboa. A acidez volátil — que dá aromas de acetona, o chamado “vinagrinho”, e na boca resulta numa frescura picante — anda sempre lá em cima, muito próximo do limite legal. Finalmente, mas não de somenos, destaque-se o carácter especiado destes vinhos (açafrão, cardamomo…), cortesia do seu envelhecimento oxidativo, em cascos de madeira, os aromas a frutos secos e, sobretudo, as características folhas secas (chá, tabaco…).
Há Carcavelos feitos de vinho branco e outros feitos de tinto. A fruta que sentimos nuns e noutros é diferente e, à semelhança do que acontece nos vinhos tranquilos, nos primeiros sentimos mais a laranja, o damasco, essa família de frutas, enquanto nos segundos os aromas vão mais à fruta vermelha. Como no Porto, mas com regras diferentes para a feitura dos lotes, há Carcavelos com indicação de idade e há Carcavelos Colheita.
Porque faz vinho o município?
O projecto vínico em Oeiras começa com a plantação das primeiras vinhas desta era mais moderna da quinta que Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, usava para lazer — herdara a propriedade em 1737, do seu tio Paulo de Carvalho e Ataíde. Em 1983, ainda sobre a alçada directa da Estação Agronómica Nacional, plantaram-se as castas que apareciam no Decreto-Lei n.º 23880, de 21 de Maio de 1934, nomeadamente as castas brancas Arinto, Galego Dourado, Ratinho (recomendadas na produção da DO Carcavelos), Seara Nova e Rabo de Ovelha e as tintas Castelão, Trincadeira e Amostrinha.
As uvas iam para vinificar em Dois Portos, Torres Vedras, na Estação Vitivinícola Nacional — os Carcavelos dos anos 1980 foram feitos lá —, até que em 1994 nova legislação obriga a que o processo produtivo esteja dentro da região demarcada e os vinhos voltam a ser feitos em Oeiras. “Nessa altura a Câmara [de Oeiras] já tinha um protocolo de colaboração com a Estação Agronómica. Em 1997, refaz esse protocolo e assume as despesas de recuperação destas instalações e da aquisição de equipamentos para fazer tudo aqui”, conta Alexandre Eurico Lisboa.
O Município de Oeiras produz, com a marca Villa Oeiras, vários Carcavelos com indicação de idade e colheitas
Rui Gaudêncio
O antigo centro de lavoura — e, no tempo do Marquês de Pombal, pavilhão de caça —, reabilitado em 2001, virou adega, vem daí o nome que lhe dão, Casal da Manteiga, e que é também a marca sob a qual o município engarrafa hoje vinhos tranquilos. Feita a obra, a Câmara chegou a entregar as chaves aos técnicos do Estado, mas pouco tempo depois a produção de Carcavelos na propriedade voltou para a sua alçada. Aí chegados, Alexandre explica como, em 2006, a discussão se fez em torno da necessidade e oportunidade de terem de adquirir um número significativo de barricas: “discutiu-se muito o tipo de madeira que usaríamos e chegou-se à conclusão que a oportunidade era a de adquirir conhecimento”.
“Se este era, e é, um projecto político de recuperação de património, era importante adquirir barricas novas — é algo que nunca ninguém usa num projecto de vinhos licorosos — para perceber o que é que um [carvalho francês dos bosques de] Limousin, o que é que um [carvalho de] Allier, o que é que um carvalho português, um castanho ou um mogno, com diferentes tipos de tostas, e o que podem essas madeiras dar ao vinho de Carcavelos. Temo-las cá todas.”
Junto às antigas manjedouras, ali deixadas propositadamente, provámos um interessantíssimo ensaio, aonde para já Pedro Sá, enólogo principal do projecto desde 2017, tem ido buscar vinho para entrar em lotes. O mesmo Carcavelos, da colheita de 2007, foi colocado em pipas de carvalho português e em pipas do tal carvalho de Limousin, ambos os ensaios há tosta média e tosta forte.
Comparando, nesta fase, os vinhos que estão nos cascos de tosta média, o que estagia em Limousin é uma explosão de aromas — açafrão, cardamomo e pimenta branca — e pica no palato tal é a sua acidez. Achamo-lo contudo bem marcado pelas tais notas de acetona (uma volátil alta). Alexandre Eurico Lisboa defende o vinho e, pelo caminho, ensina-nos mais uma coisa: “Temos de lhe dar tempo no copo. Os sommeliers dizem que não faz sentido decantar um vinho como este, porque é um vinho oxidado e a objectivo da decantação é potenciar a oxidação naquele momento e isso faz-se em vinhos reduzidos, mas eu acho que faz sentido decantar alguns licorosos, quando têm esta intensidade aromática. Eles vão abrir e, com o tempo, esta acidez volátil ficará em equilíbrio com o resto da prova.”
Uva ainda dá para os tranquilos
Na Adega Casal da Manteiga, para além de termos provado diferentes referências de Carcavelos actualmente no mercado (confira, no final deste texto, as notas de prova do Villa Oeiras Superior), ainda provámos vinhos tranquilos e um espumante, que é novidade absoluta. “As pessoas podem perguntar porque fazemos isto, se temos assim tanto Carcavelos que nos permita fazer outras coisas?” A pergunta impõe, de facto. E Alexandre Eurico Lisboa explica que a intenção da autarquia “não é apenas recuperar os vinhos de Carcavelos, é também recuperar a cultura vínica da região”, vai daí, porque não? “Em Champagne e em Cognac, eles também fazem brancos e tintos para consumir à mesa.”
Da prova que fizemos com Alexandre, impressionaram-nos os Galego Dourado e as notas de maturidade — amêndoa amarga, petróleo, a lembrar os Riesling — que apresentam mesmo quando jovens. Ao que parece, é uma casta amiga do estágio, seja redutivo, seja oxidativo. E o projecto Villa Oeiras quer explorar isso também nos vinhos tranquilos, embora a casta seja utilizada em lote, nos Casal da Manteira branco e garrafeira branco.
Essas são as duas referências tranquilas do produtor, que acaba de lançar também um espumante de Trincadeira — tudo certificado com a indicação geográfica (IG) Lisboa — e tem vinhos para destilar e “produzir aguardente, para fortificar [o Carcavelos] e para estagiar”. Actualmente, o projecto Villa Oeiras compra as suas aguardentes à Quinta do Rol, na Lourinhã, denominação de origem que nasce precisamente do “trabalho de investigação feito em Dois Portos” nos anos 1980.
Os vinhos estagiam também na Adega do Palácio, na chamada Quinta de Baixo, onde há também uma loja e o enoturismo promove diferentes provas
Rui Gaudêncio
Em 2024, a Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa emitiu selo para 62 mil litros de DOC Carcavelos, 1,2% de todo o vinho que certifica. Só o projecto Villa Oeiras vinifica por ano, e na média da última década, cerca de 54 mil litros de Carcavelos — mais 5 mil a 7 mil litros de vinho tranquilo.
O número de produtores da DO Carcavelos não chegará à meia dúzia, sendo que apenas o município de Oeiras, a Quinta da Corrieira, no mesmo concelho, e a Adega de Belém continuarão a produzir vinho todos os anos. Os outros vão engarrafando vinhos mais antigos, como a Quinta dos Pesos ou as Caves Velhas. Mas há sangue novo.
O município vizinho de Cascais também tem um projecto vínico que assenta no renascimento do vinho de Carcavelos, no Mosteiro de Santa Maria do Mar: a primeira vindima foi em 2021, mas só no primeiro trimestre de 2026 serão apresentados os primeiros vinhos tranquilos e os generosos só serão lançados depois disso. E na Quinta de Valverde, em Bicesse (Cascais), a família Valente plantou, em 2023, 3 hectares de vinha.
Para salvar património, quantos mais melhor.
Nome Villa Oeiras Carcavelos Superior
Produtor Muncípio de Oeiras;
Castas Arinto, Galego Dourado e Ratinho
Região Lisboa
Grau alcoólico 18,8%
Preço (euros) 36
Pontuação 95
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Villa Oeiras é o projecto de recuperação do património vitivinícola do Município de Oeiras, que produz várias categorias do generoso Carcavelos, mas também vinhos tranquilos e até um espumante com Indicação Geográfica Protegida (IGP) Lisboa. No vinho Carcavelos, o lote não obedece a uma média ou perfil organoléptico pré-definido, mas o vinho mais jovem utilizado nesse blend deve ter a idade que consta no rótulo. Este Superior seria, por essa lógica, o 15 Anos do produtor. Oferece um intricado e elegante bouquet aromático — nozes, canela, folha de chá, um bocadinho de tabaco, ligeiro vinagrinho —, concentração, complexidade e grande equilíbrio entre doçura, álcool e frescura, com um final de boca “seco” como manda o Carcavelos e pelas notas das tais folhas secas. Este é para surpreender aqueles que nunca ouviram falar do generoso da Linha do Estoril.
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