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Os EUA não se libertaram, fecharam-se sobre si mesmos – ECO

O “Dia da Libertação” de Trump destruiu a ordem comercial vigente e a imagem dos EUA no mundo.

O “Dia da Libertação” de Trump trouxe um aumento das taxas aduaneiras ainda maior do que o esperado, destruindo os fundamentos sobre os quais tem assentado o comércio internacional global.

O Presidente dos EUA prometeu tarifas “recíprocas”, que teriam em conta as taxas cobradas pelos países, barreiras comerciais e práticas de manipulação cambial. Na verdade, foi usada uma fórmula básica que divide o excedente comercial dos países com os EUA pelas exportações totais. O resultado foi depois dividido por dois para chegar à taxa “descontada” anunciada por Trump.

Por exemplo, segundo o departamento de estatísticas dos EUA, o défice comercial com a UE em 2024 foi de 236 mil milhões de dólares para um total de 605 mil milhões de importações, o que resulta numa taxa de 39%, que baixa para 19,5% com o “desconto” de 50%. Ao bloco dos 27 passa assim a ser aplicada uma tarifa geral de 20% a partir de 9 de abril.

Em suma, as novas taxas foram calculadas sem usar dados sobre as tarifas. E nada têm de recíproco. A média das taxas aplicadas pela UE aos Estados Unidos, ponderadas pelo volume das diferentes importações, rondam 1% a 2%. O princípio do “olho por olho, dente por dente” foi uma de várias falsidades proferidas por Trump durante o seu discurso.

Mais. Como salienta o economista Paul Krugman, a fórmula só inclui o comércio de bens e não o de serviços. Ora nestes são os EUA que têm um excedente em relação à União Europeia.

Aquela mesma conta resultou em taxas que vão desde os 50% para o Lesoto a 10% para o Reino Unido, passando pelos 46% para o Vietname, 34% para a China ou 24% para o Japão. O grosso dos países leva uma tarifa de 10%, mesmo aqueles com quem os EUA têm um excedente e não um défice comercial.

São tarifas incompatíveis com as regras da Organização Mundial de Comércio e que quebram os princípios básicos em que o sistema de comércio global tem assentado nas últimas décadas, fomentado pela política norte-americana, e que trouxe prosperidade ao país e ao resto do mundo. A decisão vai implicar um redesenho brutal das cadeias de abastecimento.

O Presidente dos EUA afirmou que o dia 2 de abril de 2025 ficaria na História. E nesse ponto tem razão. Se, como sugere a ordem executiva, as taxas de 25% se aplicarem também aos produtos farmacêuticos, madeira e semicondutores, a taxa aduaneira média ponderada pelas importações chegará aos 24%, o nível mais elevado em 125 anos, segundo cálculos da Capital Economics. A política comercial dos EUA regressou ao século XIX.

A administração Trump pode imaginar uma nova “era de ouro” para os EUA, marcada por um renascimento industrial. O impacto pode, na verdade, ser um regresso às trevas. A revista The Economist escreve que Trump cometeu o “mais profundo, prejudicial e desnecessário erro económico da era moderna”. Histórico, de facto.

A saraivada de taxas aduaneiras vai arrefecer a economia e aumentar a inflação um pouco por todo o mundo. A razia nas bolsas e a forte queda da cotação do petróleo ou do cobre traduzem o ajuste nas expetativas. Os EUA não são poupados. A dramática mudança de direção do dólar nas últimas semanas eclipsou os ganhos conseguidos desde a eleição de Trump. A principal razão é o receio de uma recessão no país.

As tarifas são um imposto que tira dinheiro aos consumidores para dar aos Estados e às empresas que beneficiam da proteção das taxas mais elevadas. Se esse dinheiro for, pelo menos em parte, devolvido em descidas de impostos, como Trump prometeu, o efeito nas famílias poderá ser mitigado. O Presidente dos EUA imagina uma economia em que o Estado é em grande parte financiado por tarifas em vez dos impostos sobre o rendimento.

A médio e longo prazo, esta barragem de tarifas prejudicará a competitividade, empreendedorismo e criatividade que construíram alguns dos negócios mais bem-sucedidos do mundo. Protegidas da concorrência, as empresas perdem o estímulo para a eficiência e a inovação, em particular as que mais dependem do mercado interno.

Deve a União Europeia retaliar?

A retaliação deve ser bem medida. A imposição de novas tarifas irá encarecer os bens importados dos EUA, incluindo os que são usados para fabricar outros produtos, castigando as empresas. Seja porque parte desse custo é internalizado nas margens, seja porque têm de vender mais caro e, por isso, vendem menos.

A UE enfrenta outra ameaça: com o mercado americano “bloqueado”, os países mais afetados pelas tarifas vão procurar vender os seus produtos aos perto de 450 milhões de consumidores dos 27. “A Europa prepara-se para uma invasão de produtos chineses após as tarifas de Trump“, diz um título desta sexta-feira de manhã do Financial Times.

O dilema está entre preservar a economia ou enviar um sinal político forte. Olli Rehn, antigo comissário europeu, governador do Banco da Finlândia e membro do conselho do BCE defendeu esta semana que a UE deve ripostar na mesma moeda. “Não é só sobre economia, é também sobre política, e a política afeta a economia”.

Uma reação musculada agravaria o custo económico das tarifas, mas não de forma muito significativa, segundo o banco central do euro. O impacto negativo no PIB passaria de 0,3 pontos percentuais para 0,5 pontos, segundo previsões do BCE. Por cá, o Banco de Portugal estima uma redução cumulativa de 1,1% em três anos num cenário de guerra comercial. Os empresários contactados pelo ECO antecipam um impacto “muito negativo”.

Nas próximas semanas e meses, haverá um esforço dos países para negociar com a administração Trump uma redução das taxas ou mesmo exceções – a alavancagem económica para extrair cedências era um dos objetivos. O Presidente dos EUA disse esta quinta-feira estar aberto a ofertas “fenomenais”.

As empresas tentarão fazer o mesmo, prometendo apoio às políticas de Trump ou cheques chorudos para futuras campanhas do Partido Republicano. O Wall Street Journal escreve em editorial que o “Dia da Libertação” vai “aumentar o pântano de Washington”.

O impacto vai muito além da economia. O protecionismo de Trump é mais uma face do nacionalismo que tomou conta da Casa Branca e do Capitólio. Aos olhos dos aliados, o Governo dos EUA tornou-se irreconhecível, inconfiável, hostil. Quebraram-se laços económicos, políticos e culturais. O que na prática diminuirá o poder de influência dos EUA, incluindo nas agendas internacionais que quiser perseguir.

Até a China de Xi Jinping parece agora mais recomendável para cultivar relações estreitas. Da Europa à Ásia, já se ensaiam reaproximações.

Os EUA não se libertaram, fecharam-se sobre si mesmos. Os países ainda presos à hegemonia americana farão por se libertar das amarras, seja no comércio ou na defesa.

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