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Os pais não podem impedir que os filhos sofram | Opinião

Vivemos numa sociedade hedonista que nos coloca, muitas vezes, perante metas inalcançáveis. Enraizada numa cultura obcecada pela procura da felicidade, essa sociedade incentiva-nos constantemente a eliminar sentimentos “negativos” e a acumular sentimentos “positivos”, para que nos possamos sentir permanentemente felizes.

Esta demanda da felicidade é o reflexo daquilo a que o filósofo Byung-Chul Han, na obra Sociedade do Cansaço, denomina como a crescente positivação da sociedade, que, na sua perspetiva, ativa e cria estados psíquicos “caraterísticos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade”.

Os ideais desta sociedade hedonista são, naturalmente, transpostos para a educação das crianças, alimentando um ideal de infância quase perfeita, durante a qual os mais novos só devem experienciar sentimentos considerados “positivos”, evitando, pelo contrário, as emoções encaradas como “negativas”.

Perante este ideal de felicidade, há duas questões que se impõem. Primeiro, se é possível que as crianças, durante a infância, experienciem apenas sentimentos “positivos”. Segundo, mesmo que tal fosse possível, se seria desejável. Provavelmente, a resposta a estas duas perguntas é não. Mas vamos por partes.

Quanto à primeira questão, é normal que os pais não desejem que os filhos sofram. E é natural que assim seja, pois a dor dos filhos magoa-nos mais do que o nosso próprio sofrimento. Como tal, é compreensível que os pais queiram poupar as crianças à vivência de sentimentos “negativos”, como a tristeza, o medo, a desilusão, o desalento, a vulnerabilidade ou a frustração.

No entanto, apesar de não gostarem, os pais não podem impedir os filhos de experienciarem sentimentos “negativos”, nem tão-pouco conseguem controlar todas as situações que os podem provocar. Por mais que queiram, não há nada que os pais possam fazer para evitar que os filhos, em algum momento das suas vidas, sintam este tipo de emoções. Mais tarde ou mais cedo, a vivência de sentimentos “negativos” é inevitável.

Relativamente à segunda questão, mesmo que, idealmente, os pais pudessem evitar a vivência de sentimentos “negativos” por parte dos filhos, essa possibilidade não seria positiva a longo prazo. É que, tal como é fácil de prever, a consequência seria tornar as crianças impreparadas para lidarem com os sentimentos “negativos”, dificultando o seu amadurecimento, como aliás muitas vezes se verifica nos nossos dias.

Essa impreparação tornou-se, na atualidade, responsável por uma crescente fragilização dos mais novos perante a adversidade. Demasiado protegidos, frequentemente falta-lhes a gramática emocional para lidarem com os sentimentos, a resiliência para aguentarem as adversidades e a força para ultrapassarem as dificuldades.

Sendo assim, o desejo de que os filhos se sintam continuadamente felizes, evitando os sentimentos considerados “negativos”, em vez de constituir um passaporte para a felicidade, pode contribuir, pelo contrário, para os tornar mais frágeis, desprotegidos e impreparados para lidarem com a dor.

Segundo a psicóloga e analista junguiana Helena Santos, “há uma verdadeira obstinação dos pais em livrarem os filhos do sofrimento, gerando atitudes protetoras e a fantasia de poder mantê-los à margem de qualquer dor. Mas, quanto mais os protegem, mais os seus filhos se tornam criaturas frágeis, desprotegidas e impreparadas para enfrentar os desafios da vida”, que incluem sempre, em algum momento das nossas trajetórias pessoais, uma inevitável dose de sofrimento.

Mas… ainda há mais um mas. É que, além de irrealista, a motivação dos pais para evitarem a vivência de sentimentos “negativos” por parte dos filhos assenta numa visão equivocada do próprio conceito de felicidade, tal como defendem Edgar Cabanas e Eva Illouz na obra A Ditadura da Felicidade. De acordo com estes autores, “as emoções são experiências complexas que abrangem uma ampla gama de fenómenos diferentes”, pelo que aquilo que as pessoas sentem com frequência é uma combinação de sentimentos, ou seja, uma mistura emocional para a qual não existe uma designação, mas que deve ser encarada como um estado emocional que ultrapassa a mera acumulação de emoções supostamente mais básicas e simples.

Posto isto, em vez de querermos proteger as crianças de toda e qualquer dor, atrevo-me a dizer que é positivo que estas aprendam a lidar com os sentimentos considerados “negativos” na infância, ainda com a nossa mão por trás, amparadas e acompanhadas. Na verdade, poderá ser mais útil apoiá-las na integração dos sentimentos “positivos” e dos sentimentos “negativos”, de modo a intuírem que estes dois tipos de sentimentos fazem parte das duas faces de uma mesma moeda, cara e coroa, alegria e tristeza, confiança e incerteza, coragem e receio, tranquilidade e inquietação. E que não existem uns sem os outros. Sem integrarmos os sentimentos “negativos”, dificilmente rejubilaremos com os “positivos”.

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